JOSÉ, de DRUMMOND
Roberto Machado
E agora
José ? (Expressão de domínio público: beco sem
saída ou busca de solução)
A festa
acabou, (está sem saída, no fim da
linha)
A luz
apagou, (está numa situação sem saída)
O povo
sumiu, (ficou só no mundo)
A noite
esfriou, (está desamparado, sem
agasalho)
E agora,
José ? (você está num beco sem
saída, qual é a solução?)
E agora,
você ?
Você que
é sem nome, (Ele ou uma pessoa
qualquer)
Qu Que
zomba dos outros
Voc Você que
faz versos
Que ama,
protesta, (brincalhão, poeta, cheio de vida,
ativista)
E agora,
José ? (passa a questionar sua relação
“eu-vida-mundo”,
cai em depressão e passa a ver o lado
negativo
da vida)
Está sem
mulher,
Está sem
discurso,
Está sem
carinho,
Já não
pode beber,
Já não
pode fumar,
Cuspir já
não pode, (relação conflitiva e negativa - nada
tem e nada pode fazer)
A noite
esfriou, (não há calor, está ao desamparo)
O dia não
veio, (não há luz, não veio a solução)
O bonde
não veio, (está sem caminho, sem rumo)
O riso
não veio, (está infeliz, sem alegria)
Não veio
a utopia (Utopia:
sonho-ilusão do futuro inatingível - está sem futuro)
E tudo
acabou
E tudo
fugiu
E tudo
mofou,
E agora,
José ?
E agora,
José ?
Sua doce
palavra, (meiguice, educação)
Seu
instante de febre, (alucinações
febris)
Sua gula
e jejum, (bonança)
Sua
biblioteca, (prova
de sua cultura)
Sua lavra
de ouro, (boa redação,
bom texto)
Seu terno
de vidro (roupa fina e bem
cuidada)
Sua
incoerência (diz uma
coisa e faz outra - se contradiz)
Seu ódio,
e agora ? (não adianta seu
ódio)
Com a
chave na mão
Quer
abrir a porta, (ele até tenta sair daquela situação)
Não
existe porta; (não está
encontrando saída)
Quer
morrer no mar
Mas o mar
secou; (não tem água
para se afogar)
Quer ir
para Minas (autobiográfico – voltar para terra natal)
Minas não
há mais. (perdeu a
referência da própria terra natal)
José, e
agora ?
Se você
gritasse, (será que
resolveria gritar, dormir, morrer ?)
Se você
gemesse,
Se você
tocasse
A valsa
vienense, (valsa mais
linda do mundo)
Se você
dormisse, (dormir para
acordar noutra realidade)
Se você
cansasse
Se você
morresse... (ir à exaustão
ou até morte, resolve ?)
Mas você
não morre,
Você é
duro, José ? (até a morte
libertadora não vem, não chegou a hora!)
Sozinho
no escuro (continua vivo
e sem saída)
Qual
bicho-do-mato, (os bichos
vivem escondidos no mato)
Sem
teogonia, (sem
crença, sem Deus, sem religião)
Sem
parede nua
Para se
encostar, (sem a
mínima base de apoio)
Sem
cavalo preto
Que fuja
a galope, (sem poder
escapar com rapidez)
Você
marcha, José !
José,
para onde ? (ele segue à busca de um rumo, de uma solução)
RESUMO: Drummond nasceu em Minas Gerais, na cidade interiorana de Itabira. Teve
problemas de relacionamento com um professor. Foi expulso do Colégio. Fixou-se
no Rio de Janeiro e ali morreu. Nunca voltou para Minas. Teve sérios e eternos
problemas com a mulher. Perdeu a única filha, o grande amor de sua vida. Morreu
logo depois. O poema José é autobiográfico. Parece falar de si e consigo mesmo.
Questiona sobre sua própria existência humana, seus conflitos existenciais,
valorizando a autonegação. O nome José designa que é uma pessoa comum. Todos
temos tais conflitos existenciais. Note-se que o poema já começa com o personagem num beco sem saída. Antes
um homem brincalhão (zomba dos outros), cheio de vida e ativo (ama, protesta),
passou a questionar seu ser-no-mundo (sua relação com o mundo, com a vida, com
as pessoas), ou seja, seus conflitos existenciais. Mas pelo lado negativo,
fruto de sua autonegação. Tudo lhe era negado (beber, fumar, cuspir). Um ser em
pleno estado depressivo. Não lhe veio nem a utopia (um sonho de futuro
inatingível). Tudo que tinha de bom (sua biblioteca, terno bom, lavra de ouro)
ou de ruim (incoerência, ódio) já nada lhe valia. Tentou encontrar uma saída
(porta). Não encontrou. Não encontrou nem o caminho de casa (Minas, terra
natal, de quem perdera a própria referência). Será que a saída era gritar,
gemer, dormir (para acordar com a solução) ou mesmo morrer (solução
definitiva)? Mas ele não morria. Continuava naquele estado depressivo (sozinho,
no escuro, como um bicho-do-mato), sem apoio (parede), sem Deus (teogonia), sem
poder escapar com rapidez (sem cavalo preto). Mas ele devia seguir (marchar) à
busca de uma solução (para onde ?).
Que bela análise do poema-canção do Drummond o senhor fez. Quantos Josés há por aí? com certeza, muitos, batendo em portas que teimam em ficarem fechadas, mesmo sabendo que quem as bate é digno de entrada. Josué Rocha da Silva
ResponderExcluirJosué
ExcluirO seu nome e o seu comentário me remete a um trabalho (alegações finais)de um defensor público que conseguiu absolver um desempregado da acusação de crime de furto. O Defensor também se mirou na lerar de José, de Drummond, escrevendo o texto: E AGORA, JOSUÉ. Acho que vc encontrará esse texto da internet. Caso vc não tenha, nem encontre, posso te repassar. Mas o teu comentário também me remete a uma canção de Toquinho/Vinícius: UM HOMEM CHAMADO ALFREDO. O cara se matou de solidão, porque ninguem o queria, ninguem lhe dava atenção. José e Alfredo são simbolos de uma mesma sociedade em que vale o "ter" e não o "ser". Roberto Machado