terça-feira, 23 de julho de 2013

CRÔNICA MUSICAL



JOSÉ, de DRUMMOND

Roberto Machado


E agora José ?        (Expressão de domínio público: beco sem saída ou busca de solução)
A festa acabou,      (está sem saída, no fim da linha)
A luz apagou,        (está numa situação sem saída)
O povo sumiu,       (ficou só no mundo)
A noite esfriou,      (está desamparado, sem agasalho)
E agora, José ?       (você está num beco sem saída, qual é a solução?)

E agora, você ?          
Você que é sem nome,    (Ele ou uma pessoa qualquer)
Qu                                          Que zomba dos outros
Voc                                         Você que faz versos  
Que ama, protesta,           (brincalhão, poeta, cheio de vida, ativista)
E agora, José ?                  (passa a questionar sua relação “eu-vida-mundo”,
                                          cai em depressão e passa a ver o lado negativo
                                          da vida)

Está sem mulher,                   
Está sem discurso,
Está sem carinho,
Já não pode beber,                
Já não pode fumar,                
Cuspir já não pode,            (relação conflitiva e negativa - nada tem e nada pode fazer)
A noite esfriou,                  (não há calor, está ao desamparo)
O dia não veio,                   (não há luz, não veio a solução)
O bonde não veio,              (está sem caminho, sem rumo)
O riso não veio,                  (está infeliz, sem alegria)
Não veio a utopia               (Utopia: sonho-ilusão do futuro inatingível - está sem futuro)
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou,
E agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,                   (meiguice, educação)
Seu instante de febre,            (alucinações febris)
Sua gula e jejum,                   (bonança)
Sua biblioteca,                       (prova de sua cultura)
Sua lavra de ouro,                  (boa redação, bom texto)
Seu terno de vidro                  (roupa fina e bem cuidada)
Sua incoerência                      (diz uma coisa e faz outra - se contradiz)
Seu ódio, e agora ?                 (não adianta seu ódio)
Com a chave na mão
Quer abrir a porta,                  (ele até tenta sair daquela situação)
Não existe porta;                    (não está encontrando saída)
Quer morrer no mar   
Mas o mar secou;                   (não tem água para se afogar)
Quer ir para Minas                 (autobiográfico – voltar para terra natal)
Minas não há mais.                 (perdeu a referência da própria terra natal)
José, e agora ?

Se você gritasse,                     (será que resolveria gritar, dormir, morrer ?)
Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa vienense,                   (valsa mais linda do mundo)
Se você dormisse,                  (dormir para acordar noutra realidade)
Se você cansasse
Se você morresse...                 (ir à exaustão ou até morte, resolve ?)
Mas você não morre,
Você é duro, José ?                (até a morte libertadora não vem, não chegou a hora!)

Sozinho no escuro                  (continua vivo e sem saída)
Qual bicho-do-mato,              (os bichos vivem escondidos no mato)
Sem teogonia,                        (sem crença, sem Deus, sem religião)
Sem parede nua
Para se encostar,                     (sem a mínima base de apoio)
Sem cavalo preto
Que fuja a galope,                  (sem poder escapar com rapidez)
Você marcha, José !  
José, para onde ?                    (ele segue à busca de um rumo, de uma solução)


RESUMO: Drummond nasceu em Minas Gerais, na cidade interiorana de Itabira. Teve problemas de relacionamento com um professor. Foi expulso do Colégio. Fixou-se no Rio de Janeiro e ali morreu. Nunca voltou para Minas. Teve sérios e eternos problemas com a mulher. Perdeu a única filha, o grande amor de sua vida. Morreu logo depois. O poema José é autobiográfico. Parece falar de si e consigo mesmo. Questiona sobre sua própria existência humana, seus conflitos existenciais, valorizando a autonegação. O nome José designa que é uma pessoa comum. Todos temos tais conflitos existenciais. Note-se que o poema já começa com o personagem num beco sem saída. Antes um homem brincalhão (zomba dos outros), cheio de vida e ativo (ama, protesta), passou a questionar seu ser-no-mundo (sua relação com o mundo, com a vida, com as pessoas), ou seja, seus conflitos existenciais. Mas pelo lado negativo, fruto de sua autonegação. Tudo lhe era negado (beber, fumar, cuspir). Um ser em pleno estado depressivo. Não lhe veio nem a utopia (um sonho de futuro inatingível). Tudo que tinha de bom (sua biblioteca, terno bom, lavra de ouro) ou de ruim (incoerência, ódio) já nada lhe valia. Tentou encontrar uma saída (porta). Não encontrou. Não encontrou nem o caminho de casa (Minas, terra natal, de quem perdera a própria referência). Será que a saída era gritar, gemer, dormir (para acordar com a solução) ou mesmo morrer (solução definitiva)? Mas ele não morria. Continuava naquele estado depressivo (sozinho, no escuro, como um bicho-do-mato), sem apoio (parede), sem Deus (teogonia), sem poder escapar com rapidez (sem cavalo preto). Mas ele devia seguir (marchar) à busca de uma solução (para onde ?).

2 comentários:

  1. Que bela análise do poema-canção do Drummond o senhor fez. Quantos Josés há por aí? com certeza, muitos, batendo em portas que teimam em ficarem fechadas, mesmo sabendo que quem as bate é digno de entrada. Josué Rocha da Silva

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    1. Josué

      O seu nome e o seu comentário me remete a um trabalho (alegações finais)de um defensor público que conseguiu absolver um desempregado da acusação de crime de furto. O Defensor também se mirou na lerar de José, de Drummond, escrevendo o texto: E AGORA, JOSUÉ. Acho que vc encontrará esse texto da internet. Caso vc não tenha, nem encontre, posso te repassar. Mas o teu comentário também me remete a uma canção de Toquinho/Vinícius: UM HOMEM CHAMADO ALFREDO. O cara se matou de solidão, porque ninguem o queria, ninguem lhe dava atenção. José e Alfredo são simbolos de uma mesma sociedade em que vale o "ter" e não o "ser". Roberto Machado

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