terça-feira, 23 de julho de 2013

CRÔNICA LITERÁRIA



A PAIXÃO DE VINÍCIUS
(Mensagem psicografada por Francisco Roberto Machado, Juiz Federal/CE)

— Eu, o capitão-do-mato Vinícius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil na linha direta de Xangô, intitulado, post-mortem, de o poeta da paixão, quero aproveitar, porque agora apareceu um portador, para mandar um recadinho aos meus caros amigos, especialmente aos parceirinhos Chico e Toquinho, entregando-lhes a missão de divulgar esta mensagem além da vida. Aqui, direto dos estúdios do pai celestial — num petit comité ao lado do meu querido Tonzinho, de São Pixinguinha e do meu bom Maria, com eles entornando uma cachacinha de rolha, porque aqui no céu não chega cachorro engarrafado — quero externar algumas reflexões sobre minha passagem terrena, principalmente neste Rio de amor que se perdeu. E de logo revelo duas coisinhas que nunca me abandonaram o espírito, especialmente porque, juntas, sempre representaram para mim algo uno e indivisível: a mulher e a paixão. Aliás, quero de logo deixar bem claro que nada há de novo sobre o assunto, senão o meu desejo, agora celestial, de repisar o que todos já sabem: que a vida é boa para ser vivida, como eu sempre quis vivê-la, intensa e apaixonadamente, em cada vão momento, tanto que em seu louvor tratei de espalhar meu canto. E agora, cá do céu, posso dizer, alto e bom som, o que eu já dizia antes: — cuidado, companheiro, a vida é pra valer. E não se engane, não, tem uma só, pois duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer que tem, porque, agora, sou testemunha ocular do fato, tornando-se dispensável aquela prova que eu tanto em vida propugnava: certidão passada em cartório do céu, assinada embaixo: Deus — e com firma reconhecida. Acreditem em mim!

— A propósito de acreditar, lembro que, embora o general Costa e Silva não acreditasse, a ponto de exigir então minha cabeça na “diplomacia”, digo-lhes que minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar. Olha que eu já havia dito isto em antigo poema dedicado a Pedro, meu filho, quando ele ainda era um menininho. Mas acho que meus detratores só entenderam o que então escrevi muito depois de meu previsível passamento.

— Luta à parte, durante minha única vida terrena tive dois grandes amores: a mulher e a poesia. A poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei. E amei a ti, mulher amada, cioso de que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. Tu, mulher amada, és tão profundamente que irrelevas as coisas mesmo do pensamento. E eu te amei e amei, ai de mim, muito mais do que devia amar. Era como se o amor doesse em paz. Ah, eu amei, amei demais. E eu chorei, perdi a paz. O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu. Ainda assim, te peço perdão por te amar de repente. E se te amei assim muito e amiúde, e assim o fiz até mais do que pude, foi porque sempre cri na idéia de que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. E é por acreditar cegamente na magia desse encontro que confesso: semeei o amor e a paixão ao lado de muitas mulheres e com cada uma delas eu conheci o que é felicidade. Mesmo acreditando que as mulheres são muito estranhas, muito estranhas, e que vivem perdidas num mundo lírico e confuso, cheio de canções, aventura e magia, eu quis viver a vida sempre assim, com uma mulher perto de mim, até o apagar da velha chama. E sempre em cada uma encontrei a razão de viver e de amar em paz e não sofrer mais. Mas como o amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais, pude perceber nos olhos de cada uma em particular que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.

— Caros amigos: sempre que senti arrefecer a chama da paixão, tornei-me fiel apenas à minha poesia e fui em busca de outros amores. Mas confesso: - nessa busca tive algumas recaídas. E quando a saudade batia-me à porta, eu logo dizia: - a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai! E logo eu pedia: - vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser; diz-lhe, numa prece, que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer... chega de saudade. E também mandava recadinhos: - volta, querida, os seus olhos tem que ser só dos meus olhos, os meus braços precisam dos teus, teus abraços precisam dos meus, estou tão sozinho, não me deixes ficar triste; tem dó, pois quem viveu junto não pode nunca viver só! E insistia: - tomara que você volte depressa, que você não se despeça nunca mais do meu carinho, afinal tu me chegaste sem me dizer que vinhas e foste em minha’alma como um amanhecer! E implorava: - se guarda para mim, pois tua ausência é um sofrimento!

— O desfecho é de todos sabido: apesar dos tantos apelos, nenhuma retornou aos meus braços, nem fez de seus braços o meu ninho. Aliás, pelo menos uma delas foi-se embora de repente, não mais que de repente, antes que eu, como de costume, saísse à francesa em busca de uma nova paixão. (Do episódio de minha fujona amada, o Badinho é testemunha). E o que é pior: como o perdão também cansa de perdoar, ela se foi sem sequer dizer adeus, mesmo que eu lhe rogasse: - Ah, meu amor não vais embora, pois sem você eu não sou ninguém, porque sei que vou te amar, por toda minha vida eu sei que vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar. Tudo debalde, restou-me exclamar: - Ah, insensatez que você fez, fez chorar de dor o seu amor, um amor tão delicado. Vendo tudo desfeito, tudo perdido, o amor dilacerado, o pranto ante a agonia do fato consumado, ainda tentei uma ameaçazinha: - tudo bem, agora vá sua vida como você quer, porém não se surpreenda se uma outra mulher nascer de mim, como do deserto uma flor! Mas ela se foi. E eu fiquei pensando. É, existe sempre uma mulher para se ficar pensando! À noite, em conversa com amiguinhas confidentes, uma recomendou-me uma macumbazinha. Mas logo outra advertiu: - coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor! Enquanto uma dizia: vai, vai, vai, logo a outra insistia: - se é canto de Ossanha, não vá, pois muito vai se arrepender Resoluto, decidi: - eu só vou se for pra ver uma estrela aparecer na manhã de um novo amor!

— Durante minha vida terrena, por céus e mares eu andei na esperança de saber o que é o amor. Ninguém sabia me dizer, quando um velhinho com uma flor assim falou: - o amor é o carinho, é o espinho que não se vê em cada flor. De passagem pelo candomblé baiano, sob os auspícios de meu orixá, ali me foi ensinado que o amor só é bom se doer, pois ninguém tem nada de bom sem sofrer. Olha, fale quem quiser falar, meu bem, mas a gente nasce, a gente cresce, a gente quer amar, mesmo sabendo que são demais os perigos dessa vida para quem tem paixão. Descansasse o Senhor no 6º dia da criação, simplesmente não existiríamos e, portanto, não sofreríamos males de amor. Mas como Deus criou o mundo e fez o homem (quase) à sua semelhança e se, por outro lado, paixão é sofrimento, tinha eu razão quando dizia: - mesmo que tenha que sofrer, eu abro o jogo e o coração e deixo o meu barco correr. E dizia mais: - pelo amor de uma mulher, eu viro a cara pro perigo e seja lá o que Deus quiser. Mas pergunto agora: - pra que chorar, pra que sofrer, se é sempre um novo amor cada novo amanhecer? Em verdade vos digo: - é preciso amar sem mentir; é preciso manter a esperança divina de amar em paz; é preciso inventar de novo o amor.

— Amigos meus, está chegando a hora. Como vocês já sabem, eu morri. Logo eu, que vivia perguntando: quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores? Pois estou morto. Literalmente. Morri, sim, de amores. Ah, como é lindo se morrer de amor! Morto, ainda choro de saudades de minha pátria. Morto, espero estar bem vivinho em vossas mentes e corações. Bom... mas eu vou partir, eu vou ter que dizer adeus. Mais uma vez. Lembram que eu, ainda na vida terrena, pedi a benção, ao cabo de uma canção, aos meus amigos então já aqui no céu, grandes sambistas desse meu Brasil branco, preto e mulato? Pois agora, aqui do além, sou eu que lhes mando minha benção, a todos que ainda aí padecem. E não esqueçam: para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto, pois o amor é sempre um sentimento que a separação não deixa em paz. Também não esqueçam: mesmo sabendo que a paixão traz sempre muita dor, a mulher foi feita pro amor e pro perdão (caiam nessa, não!); e ai de quem não rasga o coração: esse não vai ter perdão. Para finalizar, vou repetir: - ninguém vive mais do que uma vez. Portanto, acreditem em mim e se cuidem, pois o gim é um veneno. Cuidado, parceirinhos, não bebam demais. E procurem o colo de uma mulher, uma companheira, uma brasileira, para se amar, porque a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais. E sou eu, o poeta, quem diz: - ser feliz é viver morto de paixão.

NOTA EXPLICATIVA: A alusão à psicografia é verdadeira licença poética. Este texto é resultado, sim, de pura intelecção, encerrando, em verdade, uma construção, tijolo com tijolo num desenho lógico, da poética de Vinícius de Moraes, a partir das seguintes composições e poemas do poetinha: SAMBA DA BENÇÃO; CAROS AMIGOS; TARDE DE ITAPOÃ; CARTA AO TOM 74; SONETO DE FIDELIDADE; DEIXA; MAIS UM ADEUS; PEDRO, MEU FILHO; DIA DA CRIAÇÃO; CONJUGAÇÃO DA AUSENTE; AMOR EM PAZ; É PRECISO DIZER ADEUS; BERIMBAU; TERNURA; SONETO DO AMOR TOTAL; TESTAMENTO; CORCOVADO; MEDITAÇÃO; CHEGA DE SAUDADE; MINHA NAMORADA; SAMBA EM PRELÚDIO; TEM DÓ; TOMARA; SONETO DE SEPARAÇÃO; O QUE TINHA DE SER; REGRA TRÊS; APÊLO; EU SEI QUE VOU TE AMAR; INSENSATEZ; A ROSA DESFOLHADA; E SE ESUEÇA DE MIM; A CARTA QUE NÃO FOI MANDADA; CANTO DE OSSANHA; O VELHO E A FLOR; DEIXA; FORMOSA; SONETO DO CORIFEU; O DIA DA CRIAÇÃO; TURBILHÃO; PRA QUE CHORAR; SE TODOS FOSSEM IGUAIS A VOCÊ; SE ELA QUISESSE; AMIGOS MEUS; A HORA ÍNTIMA; PÁTRIA MINHA; PARA VIVER UM GRANDE AMOR; AS RAZÕES DO CORAÇÃO; COMO DIZIA O POETA; NO COLO DA SERRA; TOMARA; AS CORES DE ABRIL.

RESPOSTA DE UM E-MAIL A UMA SOBRINHA QUE RECEBEU O TEXTO:
Elaine:

A estória da "psicografia" é uma "licença poética". Na verdade, eu fiz uma crônica tomando por empréstimo parte do que o poetinha escreveu. Fiz uma construção: tijolo com tijolo num desenho lógico. Pincei versos do poetinha de várias músicas e poesias ... e fui montando. O difícil é dar coerência a um texto montado com palavras que você nunca escreveu. Quer dizer: eu nada escrevi (só algumas palavras, suficientes para fazer as interligações). Noventa por cento é do poetinha, extraída do que ele esparsamente escreveu (veja relação abaixo da crônica). Palavras minhas mesmo talvez cerca de 10%. Apenas o necessário para unir cada verso que ele escreveu. É claro que, tal como está, ele nunca escreveu. O texto é completamente novo. As palavras ele as escreveu em outro tempo e realidade e em outras circunstâncias. 

É por ai. Mas acho que, como ficou, o poetinha também gostaria. Aliás, preciso escrever algo parecido do Chico Buarque. E quero que ele leia e se surpreenda com um texto que ele não escreveu, embora haja cunhado cada palavra.

Beijão, Tio Beto 

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