sábado, 13 de julho de 2013

CRÔNICA



VIDINHA DE VIZINHO



Roberto Machado

                                                                                           
                                                                                                             
         É muito esquecido o meu amigo. A família toda sabe. Dar recados nem pensar. Contou que engolia um comprimido quando o diabo do telefone tocou. Voltou e, na dúvida, o jeito foi engolir outro. Mudou de vida e resolveu morar sozinho. Agora é o meu vizinho do lado.
         Desistiu de ler jornais depois que se deparou com a célebre disputa “justiça versus liberdade de imprensa”. Agora, dedica-se à leitura de bulas de remédio, por recomendações de seu psiquiatra predileto. Mas exige bulas com letras graúdas, pois se considera homem digno do primeiro mundo. E vai vivendo sua vida insossa, largado da mulher e de olho na mulher do vizinho (do outro, é lógico), que prefere o vizinho (o outro, é lógico), que não prefere ninguém ou, sabe-se lá, tem outras preferências.
         Tem lido a bíblia, mas ainda não se considera capaz de abraçar essa profissão de fé. Vejo-o à noitinha espreitando a lua, nos dia de lua, pensando numa mulher ou num crime, pois time que é bom já não aprecia mais, desgostoso desse nosso futebolzinho de uma figa, segundo palavras suas. E vai levando a vida do jeito que a vida quer.
         Amarra-se em música da nossa MPB e no MPB4. Indagado a respeito de solidão e daquela estória do nosso bom Maria (o cronista e compositor Antônio Maria, lembram ?),  acrescenta outra vantagem de viver sozinho: atender ao telefone, nu, mirando-se no espelho da sala. Mas adverte: - cuidado com a janela indiscreta da empregada da vizinha do apartamento ao lado. E arremata: - nada de se matar de solidão, como o pobre Alfredo, vizinho do Vinícius.
         E se lhe perguntarem sobre o amanhã, prefere acreditar que o tempo há de purgar todos os seus pecados, como diz que diz a sagrada escritura. Êta vidinha essa do meu vizinho!

-Crônica publicada no Jornal O PÃO.

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