VIDINHA DE VIZINHO
Roberto Machado
É muito esquecido o meu amigo. A
família toda sabe. Dar recados nem pensar. Contou que engolia um comprimido
quando o diabo do telefone tocou. Voltou e, na dúvida, o jeito foi engolir
outro. Mudou de vida e resolveu morar sozinho. Agora é o meu vizinho do lado.
Desistiu de ler jornais depois que se
deparou com a célebre disputa “justiça versus liberdade de imprensa”. Agora,
dedica-se à leitura de bulas de remédio, por recomendações de seu psiquiatra
predileto. Mas exige bulas com letras graúdas, pois se considera homem digno do
primeiro mundo. E vai vivendo sua vida insossa, largado da mulher e de olho na
mulher do vizinho (do outro, é lógico), que prefere o vizinho (o outro, é lógico), que não prefere
ninguém ou, sabe-se lá, tem outras preferências.
Tem lido a bíblia, mas ainda não se
considera capaz de abraçar essa profissão de fé. Vejo-o à noitinha espreitando
a lua, nos dia de lua, pensando numa mulher ou num crime, pois time que é bom
já não aprecia mais, desgostoso desse nosso futebolzinho de uma figa, segundo
palavras suas. E vai levando a vida do jeito que a vida quer.
Amarra-se em música da nossa MPB e no
MPB4. Indagado a respeito de solidão e daquela estória do nosso bom Maria (o
cronista e compositor Antônio Maria, lembram ?), acrescenta outra vantagem de viver sozinho:
atender ao telefone, nu, mirando-se no espelho da sala. Mas adverte: - cuidado com a janela indiscreta da
empregada da vizinha do apartamento ao lado. E arremata: - nada de se matar de solidão, como o pobre
Alfredo, vizinho do Vinícius.
E se lhe perguntarem sobre o amanhã,
prefere acreditar que o tempo há de purgar todos os seus pecados, como diz que
diz a sagrada escritura. Êta vidinha essa do meu vizinho!
-Crônica publicada no Jornal O PÃO.
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