sábado, 13 de julho de 2013

CRONICA MUSICAL




ENCONTROS E DESENCONTROS NA POÉTICA 
DE VINÍCIUS DE MORAES 
(AS RAZÕES DO CORAÇÃO)




Roberto Machado

Nunca duvidei desta sentença, verberando em meu cérebro desde os meus vinte e poucos anos: — A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida!
A força dessa poética toma de assalto meu espírito exatamente porque, de repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante e de sozinho o que se fez contente, fez-se do amor próximo o distante, fez-se da vida uma aventura errante. Mas é isso ai — sempre que o amor não pode ser, sempre que a distância pode mais que o coração! Afinal, o amor é sempre um sentimento que a separação não deixa em paz. A propósito, separação rima com solidão, fim de quem ama.
A tua lembrança me dói tanto, mas tanto, que eu não posso esquecer o teu olhar longe dos olhos meus. E é uma saudade tão doída de você, que eu não sei mais nada, não. Por isso, eu tento compor o nosso amor dentro da tua ausência. E é por isso que eu canto pra ver se espanto este mal.
Você está ausente. E a tua ausência me dói tanto, mas tanto, que meu pranto rolou mais do que água na cachoeira. E dói tanto que eu te peço: — não te ausentes, porque sei que a cada ausência tua eu vou chorar, mesmo sabendo que cada volta tua há de apagar o que esta ausência tua me causou!
Mas agora vou dizer tudo o que quero te dizer, e ainda não disse, mas já devia ter dito. Portanto, te digo logo, imediatamente, apressadamente, neste exato momento, agora:
— Eu sei que são demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão. Acontece que eu sem você sou só desamor, sou chama sem luz, jardim sem luar, luar sem amor, amor sem se dar!
— Volta, querida, os meus braços precisam dos teus, teus abraços precisam dos meus, estou tão sozinho, não me deixes ficar triste. Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos. Afinal, tu me chegaste sem me dizer que vinhas e foste em minha’alma como um amanhecer. Agora, se guarda para mim, pois tua ausência é um sofrimento!
— Tomara que você volte depressa, que você não se despeça nunca mais do meu carinho. A propósito, sabe exatamente o que eu gostaria de exclamar agora: - Ah! você voltou, meu amor, alegria que me deu. Chega de saudade. Não quero mais esse negócio de você longe de mim... 
— Olhe, meu amor, tudo o que eu quero é nunca ser mais uma recordação.Apenas uma recordação a mais, não! Espero que também nunca me digas: - Vire essa folha do livro e se esqueça de mim!
— Olha, sou eu, o poeta, quem diz: - vai e canta, morena-flor. Venha se perder nesse turbilhão. Deixe o coração falar também, porque ele tem razão demais quando se queixa. Não se esqueça de fazer tudo o que pedir esse seu coração, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu. Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém. Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não. Afinal, ser feliz é viver morto de paixão!


NOTA: Transformando poesia em prosa, o texto é uma recriação da poética de Vinícius de Moraes, extraída de algumas poesias e de várias composições que se tornaram verdadeiros clássicos da música popular brasileira. Confronte este texto com as seguintes obras do “poeta da paixão”: SAMBA DA BENÇÃO, SONETO DE SEPARAÇÃO, SONETO DE FIDELIDADE, AS RAZÕES DO CORAÇÃO, EU SEI QUE VOU TE AMAR, A ROSA DESFOLHADA, MAIS UM ADEUS, APELO, SAMBA EM PRELÚDIO, MINHA NAMORADA, MORENA FLOR, MEU PRANTO ROLOU, DEIXA, SÃO DEMAIS OS PERIGOS DESSA VIDA, CHEGA DE SAUDADE, TURBILHÃO, LAMENTO NO MORRO, TOMARA, SAMBA DA VOLTA, E SE ESQUEÇA DE MIM, COMO DIZIA O POETA, BARIMBAU e AS CORES DE ABRIL.

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