sexta-feira, 12 de julho de 2013

CONTEXTUALIZAÇÃO MUSICAL - LETRAS DA BOSSA NOVA





Roberto Machado



LOBO BOBO
(Carlos Lyra/Ronaldo Boscoli)

Era uma vez um logo mau
Que resolveu jantar alguém
Estava sem vintém
Mas arriscou
E logo se estrepou

Um chapeuzinho de maiô
Ouviu buzina e não parou
Mas lobo mau insiste
E faz cara de triste
Mas chapeuzinho ouviu
Os conselhos da vovó
Dizer que “não” pra lobo
Que com lobo não sai só

Lobo canta
Pede
Promete tudo, até amor
E diz que fraco de lobo
É ver um chapeuzinho de maiô

Mas chapeuzinho percebeu
Que o lobo mau se derreteu
Pra ver você que lobo
Também faz papel de bobo
Só posso lhe dizer
Chapeuzinho agora traz
O lobo na coleira
Que não janta nunca mais

NOTA (RMACHADO): Ronaldo Boscoli namorou Nara Leão, a musa da Bossa Nova. Eram amigos de infância no Rio da década de 50. Era um pegador (um lobo mau). Tinha “péssimas” intenções com a jovem e bela musa, uma menina fina, da classe média de Copacabana. Mas ficou apaixonado. Compôs “Lobo Bobo”, letra dele e música de Carlos Lyra. Depois, pegador que era, teve muitas recaídas e feriu de morte o coração da musa, com quem pretendia se casar. Ela, mulher de princípios, nunca o perdoou. Casou com outro e teve filhos. Morreu de câncer com pouco mais de 40 anos. Ele, por seu turno, nunca foi feliz nos braços das outras, inclusive da cantora Maysa, a causadora do rompimento de Nara. Ambos entraram para a história: ela como grande intérprete da Bossa Nova e da própria MPB; ele, como um dos maiores compositores daquele movimento. Que bom ainda estivessem vivos!


SAUDADE FEZ UM SAMBA
(Carlos Lyra/Ronaldo Boscoli)

Deixa que o meu samba
Sabe tudo sem você
Não acredito que o meu samba
Só dependa de você
A dor é minha
E em mim doeu
A culpa é sua
O samba é meu
Então não vamos mais brigar
Saudade fez um samba em seu lugar
Saudade fez um samba em seu lugar

NOTA (RMACHADO): Carlinhos Lyra, parceirinho 100%, que une ação ao sentimento e ao pensamento (Vinicius de Moraes). Definitivamente, um dos maiores compositores da Bossa Nova. Talvez seu maior melodista, como chegou a afirmar o próprio Tom Jobim. Um perfeccionista. Basta escutar “Minha Namorada”, “Você e eu”, “Se é tarde me perdoa”. Nesta musica, os compositores fazem uma crítica àqueles que pensam que o samba, mais especificamente o samba Bossa Nova, tem um único pai, um dono.

VOCÊ E EU
(Carlos Lyra e Vinícius de Moraes)

Podem me chamar
E me pedir
E me rogar
E podem mesmo falar mal
Ficar de mal
Que não faz mal
Podem preparar milhões de festão ao luar
Que eu não vou ir
Melhor nem pedir
Que eu não vou ir
Não quero ir
E também podem me intrigar
Até sorrir
Até chorar
E podem mesmo imaginar
O que melhor lhes parecer
Podem espalhar que estou cansado de viver
E que é uma pena para quem me conheceu
Eu sou mais você e eu

NOTA (RMACHADO): Vinicius era muito gregário e queria os amigos e admiradores ao seu redor. E a recíproca era verdadeira. Acontece que os amigos, alguns muito possessivos, o criticavam quando se sentiam preteridos pela dedicação do poeta a uma nova paixão. E diziam: - está irreconhecível! Consciente ou inconscientemente, o poetinha parecia confundir amor e paixão (“Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure”). Em “Você e Eu”, Vinícius, vaidoso ante a reclamação de sua presença pelos amigos, manda-lhes um recado: - podem falar mal e imaginar o que melhor lhes parecer! Quer dizer: naquele momento era apenas ele e a mulher objeto de sua nova paixão.

SE É TARDE ME PERODA
(Carlos Lyra/Ronaldo Boscoli)

Se é tarde, me perdoa
Mas eu não sabia
Que você sabia
Que a vida é tão boa
Se é tarde
Me perdoa
Eu cheguei partindo
Eu cheguei mentindo
Eu cheguei à-toa
Se é tarde, me perdoa
Trago desencantos
De amores tantos
Pela madrugada
Se é tarde, me perdoa
Vinha só,
Cansado...

NOTA (RMACHADO): O autor da letra, Ronaldo Boscoli, vivia de desencontros amorosos. Sabia que a vida era boa. E, mesmo quando tinha uma parceira, desfrutava sozinho da vida. Aqui, em tom confessional, pede perdão à parceira preterida, reconhecendo, somente depois de uma noitada, que ela também sabia que a vida era boa e que também poderia gozar de suas delícias.

AMOR EM PAZ
(Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

Eu amei
E amei, ai de mim, muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar
Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você
A razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Pois o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz

NOTA (RMACHADO): Aqui, Vinícius de Moraes (nosso poeta, poetinha vagabundo, camarada, poeta da pesada, do pagode e do perdão, como disse Chico Buarque, na verdade o poeta da paixão, como assim o consagrou José Castelo) está saindo de um dos seus nove casamentos. Ele vivia cada um deles intensamente. Amava profundamente durante o tempo em que sentia acesa a chama da paixão. Depois, caia numa profunda tristeza até acontecer outra paixão, a quem se entregava como se fosse sua razão de viver. A nova paixão lhe dava paz e a ilusória sensação de não sofrer mais, nunca mais. Ilusão à parte, numa coisa ele tinha razão: - o amor é a coisa mais triste quando se desfaz!

MEDITAÇÃO
(Tom Jobim/Newton Mendonça)

Quem acreditou
No amor, no sorriso e na flor
Então sonhou, sonhou...
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais
Quem no coração
Abrigou a tristeza de ver
Tudo isso se perder
E na solidão
Procurou um caminho e seguiu
Já descrente de um dia feliz
Quem chorou, chorou
E tanto que seu pranto já secou
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor
Então tudo encontrou
Pois a própria dor
Revelou o caminho do amor
E a tristeza acabou

NOTA (RMACHADO): A Bossa Nova nasceu à beira do atlântico, ali por entre os barquinhos de Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro, por volta de 1957/1958. Sua fase inicial era romântica, embalada pelo lirismo do amor, do sorriso e da flor. Depois, houve uma cisão dos bossanovistas, envolvidos com intrigas resultantes da passagem de muitos deles do amadorismo para o profissionalismo. Carlos Lyra até tentou criar outro movimento musical, o denominado sambalanço. Mas, ao gravar seu primeiro disco, chamou-o de “Bossa Nova Carlos Lyra”. Os bossanovistas mudaram. Profissionalizaram-se. A letra da música parece querer que a fase do amor, do sorriso e da flor seja eterna.
CORCOVADO
(Antonio Carlos Jobim)

Um cantinho, um violão
Esse amor, uma canção
Para fazer feliz a quem se ama
Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o corcovado
O Redentor, que lindo!
Quero a vida sempre assim
Com você perto de mim
Até o apagar da velha chama
E eu que era triste
Descrente desse mundo
Ao encontrar você
Eu conheci o que é felicidade
Meu amor!

NOTA (RMACHADO): Nada como um cantinho, um violão, um amor, uma canção. E se esse cantinho é o Rio, com a vista voltada para o Corcovado, meu Deus! Aqui, o compositor quer viver assim eternamente. Quer que a vida seja assim... até o apagar da velha chama (a chama da paixão). Quer que o amor seja eterno... enquanto dure. Nesse ponto, ele aprendeu com o poetinha (Vinícius).

ELA É CARIOCA
(Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

Ela é carioca
Ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na cor dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz
Vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar
Ela é meu amor, só me ver a mim
A mim que vivi para encontrar
Na luz do seu olhar
A paz que sonhei
Só sei que sou louco por ela
E pra mim ela é linda demais
E além do mais
Ela é carioca
Ela é carioca

NOTA (RMACHADO): A mulher idealizada por Vinícius é a carioca. Ele sabe que ela é carioca só pelo jeitinho dela andar. Nos olhos dela, o poeta vê o Rio, as suas noites, sua luz, seu céu, seu mar. O poeta idealiza aquela mulher como o seu amor, que só tem olhos para ele. Ele que viveu para encontrar, nos olhos da amada, a paz que sonhou. Ela é linda, ele é louco por ela e ela ainda tem algo de especial: é carioca!

PRA DIZER ADEUS
(Edu lobo/Torquato Neto)

Adeus!
Vou pra não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sozinho
Tão sozinho, amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho
Ah! pena eu não saber
Como te contar
Que o amor foi tanto
Que no entanto
Eu queria dizer
- Vem
Eu só sei dizer
- Vem
Nem que seja só pra dizer adeus!

NOTA (RMACHADO): Torquato Neto era piauiense. Morreu muito jovem. Mas deixou algumas letras lindíssimas. Edu Lobo, pernambucano, é um dos mais notáveis compositores brasileiros, respeitado e admirado até por Chico Buarque, nossa unanimidade nacional.  Aqui, o poeta se despede do seu amor. Ora parece temer aquele amor, procurando dele libertar-se, ora parece não querer ir, tanto que chama por sua amada, pedindo que ela venha, nem que seja só pra dizer adeus!

CANDEIAS
(Edu Lobo)

Ainda hoje vou-me embora pra Candeias
Ainda hoje, meu amor, eu vou voltar
Da terra nova nem saudade vou levando
Pelo contrário, pouca história pra contar
Quero ver a lua vindo
Por detrás da samambaia
Rede de palha se abrindo
Em cada palmo de praia
Quero ver a lua branca
Clareando como um dia
E nos teus olhos de espanto
Tudo o quanto eu mais queria
Ainda hoje vou-me embora pra Candeias
Ainda hoje, meu amor, eu vou voltar
Da terra nova nem saudade vou levando
Pelo contrário, pouca história pra contar
E nas sombras lá de longe
Lá de onde o céu principia
Quero ver mestre proeiro
No leme e na valentia
Procissão de velas bancas
No sentido da Bahia
Procissão de velas bancas
No sentido da Bahia

NOTA (RMACHADO): Uma referência à terra natal, em Pernambuco. O poeta foi para o sul maravilha (!!!), mas está mandando dizer para sua amada que está voltando para ela e para a terra natal, sem levar nem um pouco de saudade da terra nova. Ele quer rever sua terra à beira mar, sua vidinha sossegada, perto de sua amada.

PRECISO APRENDER A SER SÓ
(Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle)

Ah! se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
E sem nós dois, o que resta sou eu
Eu assim, tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu calor
E ver que foi só um sonho e passou
Ah! o amor quando é demais
Ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe
E se vem é tão triste
Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Esses teus olhos que foram tão meus
Por Deus, entenda, que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor

NOTA (RMACHADO): O poeta indaga: - como viver sem teu amor? Sem os dois, resta apenas ele... assim... tão só. E ele precisa aprender a ser só, porque ela foi só um sonho... e passou. O amor, quando é grande e termina, leva com ele a paz. O poeta se entregou àquele amor sem pensar, e percebeu, ao ficar só, que a saudade existe e, quando a saudade vem, ninguém duvide, é só tristeza e melancolia que não tem mais fim. O poeta perdeu os olhos da amada e por isso já não vive. Mas perpetra um dos versos mais bonitos da música popular brasileira: - eu morro pensando no nosso amor!

 SAMBA DE VERÃO
(Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle)

Você viu só que amor
Nunca vi coisa assim
E passou, nem parou
Mas olhou só pra mim
Se voltar, vou atrás
Vou pedir pra ficar
Vou dizer que o amor
Foi feitinho pra dar
Olha, é como o verão
Quente o coração
Salta de repente
Só pra ver a menina que vem

Ela vem, sempre tem
Esse mar no olhar
E vai ver, tem que ser
Nunca tem quem amar
Hoje sim, diz que sim
Já cansei de esperar
Não parei, não dormi
Só pensando em me dar
Peço, mas você não vem
Deixo então, falo só
Digo ao céu
Mas você não vem

NOTA (RMACHADO): É outra espécie de garota de Ipanema. Ela, de olhos da cor do mar, passou e, na imaginação do poeta, olhou só para ele. Ela é um amor de menina. Ele nunca viu coisa assim. E fica esperando que ela volte, na esperança de que não tenha a quem amar. Espera, espera, e ela não vem. Roga aos Céus, mas ela não vem...

GENTE
(Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle)

Gente que entende que não deve dar
É porque nunca na vida sofreu por não ter
Deus quando deu esta terra pra gente
Pensou em fazer tudo bem diferente
Não que eu queira ter muita coisa demais
Quero é ter um pouquinho de paz
Quero apenas ter um lugar pra morar
Porque, veja bem,
Há quem tem
Sem saber mais de quem
Pode até mesmo o Senhor se zangar
Então vir cá pra terra pra tudo mudar
NOTA (RMACHADO): Para o poeta, quem passou pela vida e não sofreu não tem o dom da solidariedade. Ele não quer muita coisa: só um pouquinho de paz e um lugar pra morar. Mas indaga: se Deus deu-nos a terra, todos deviam ter um lugar pra morar. E adverte: - Pode até mesmo o Senhor se zangar/Então vir cá pra terra pra tudo mudar. Olha que Deus existe. É onipotente e onipresente. Ele está de olho. Os impios e ímpios que se cuidem.

BATIDA DIFERENTE
(Durval Ferreira/Maurício Einhorn)

Veja como bate engraçado o meu coração assim:
Tchan, tchan, tchan...
E realmente sincopado
Vem ouvir aqui
Mais de pertinho de mim
Tchan, tchan, tchan...
Se o coração
Batida diferente
Faz você vibrar
Eu vou lhe mostrar
Que o meu coração
(Tchan, tchan, tchan...)
Pode variar
E juntos nós iremos tentar mudar
E improvisar
O que vem do coração  Tchan, tchan, tchan...

NOTA (RMACHADO): O coração do poeta está batendo diferente. É uma batida sincopada (como é a batida da Bossa Nova). E ele chama a mulher amada: - Vem ouvir, aqui, mais de pertinho de mim. E juntos nós iremos tentar mudar e improvisar o que vem do coração!

MOÇA FLOR
(Durval Ferreira/Luiz Fernando Freire)

Moça-flor é você a mais linda flor
Moça-flor tem a cor do amor
Seu olhar a brilhar
E essa lágrima leve
Querendo chegar
Traz tristeza no ar
Moça-flor
Essa lágrima pura
É o orvalho da flor que chorou
Que sentiu
Deixa o tempo passar
Moça-flor vai chorar
É o amor

NOTA (RMACHADO): É a volta ao tempo do amor, do sorriso e da flor, que caracterizou o início da Bossa Nova. O poeta faz uma comparação: o orvalho faz chorar a flor; e se a moça-flor chora, é o amor!

TRISTEZA DE NÓS DOIS
(Durval Ferreira/Maurício Bebeto)

Quando a noite vem
Vem a saudade
Do carinho seu
Olha, meu amor
Chego a pensar
Que o nosso amor
Não morreu
Quando essa tristeza
Vem falar
Das coisas de você
Ouço a sua voz no ar
Vejo o seu olhar no céu
A chorar como eu
Com saudade também

NOTA (RMACHADO): O poeta capta o espírito dos apaixonados diante de um amor acabado. Longe do seu amor, bate-lhe uma saudade quando a noite vem. E quando a saudade chega, com ela a tristeza vem falar das coisas da mulher amada. E ele passa a ouvir sua voz (dela) e a ver no céu o seu olhar (dela) a chorar também de saudade. Supremo consolo!

QUE MARAVILHA
(Jorge Benjor/Toquinho)

Lá fora está chovendo
Mas assim mesmo eu vou correndo
Só pra ver o meu amor
Ela vem toda de branco
Toda molhada, linda e despenteada
Que maravilha
Que coisa linda
Que é o meu amor
Por entre bancários, jatomóveis
Ruas e avenidas
Milhões de buzinas tocando em harmonia
Sem cessar
E ela vem chegando de branco
Meiga, pura, linda e muito tímida
Com a chuva molhando seu corpo lindo
Que eu vou abraçar
E a gente no meio da rua, do mundo
No meio da chuva
A girar
Que maravilha
A girar

NOTA (RMACHADO): Lirismo puro. A idealização da beleza da mulher amada: - que coisa linda que é o meu amor! Ela vem chegando, na chuva, toda molhada e despenteada, meiga, pura, tímida. Que maravilha... que coisa linda que é o meu amor! Eu vou abraçar seu corpo lindo no meio da chuva, no meio da rua... e vamos ficar assim... a girar. Que maravilha! Segundo pesquisas científicas, a paixão e a fascinação duram pouco, menos de dois anos. Relacionamento duradouro exige esforço. Aqui, o poeta estava na fase da fascinação.

CHOVE CHUVA
(Jorge Benjor)

Chove chuva
Chove sem parar (bis)
Hoje eu vou fazer uma prece
Pra Deus, Nosso Senhor
Pra chuva parar
De molhar o meu divino amor
Que é muito lindo
É mais que o infinito
É puro e belo
Inocente como a flor
Por favor, chuva ruim
Não molhe mais
O meu amor assim

NOTA (RMACHADO): O poeta sabe que chuva é sempre benfazeja. Mas como chove sem parar, agora a chuva é ruim, porque não para de molhar seu divino amor, que é puro, belo e inocente como a flor. O poeta vai fazer uma prece pra Deus, Nosso Senhor, pra chuva parar. É uma questão de Justiça. Certamente Deus atenderá. Deus é justo. Na dúvida, o poeta clama: - por favor, chuva ruim, não molhe mais o meu amor assim!

MAS QUE NADA
(Jorge Benjor)

Mas que nada
Sai da minha frente
Eu quero passar
Pois o samba está animado
O que eu quero é sambar
Esse samba que é misto de maracatu
E universal
É samba de preto velho
Samba de preto, tu
Mas que nada
Um samba, como esse, tão legal
Você não vai querer
Que eu chegue no final

NOTA (RMACHADO): Jorge Benjor é supremo em ritmo. O samba nasceu da mistura de ritmos, com predominância dos ritmos africanos. O preto velho é o negro feito escravo, mas que se conformou com a situação escrava. O samba, apesar de sua origem, agora é universal. O compositor pede: - sai da minha frente, o samba está animado, eu quero passar, pois eu quero é sambar. Você não vai querer que eu chegue no final de um samba como esse, tão legal?

ILUSÃO Á-TOA
(Johnny Alf)

Ah! somente um dia longe dos teus olhos
Trouxe a saudade de um amor tão perto
E o mundo inteiro fez-se tão tristonho
Ah! embora agora eu te tenha perto
Eu acho graça do meu pensamento
A conduzir o nosso amor discreto
Sim, amor discreto para uma só pessoa
Pois nem de leve sabes que eu te quero
E me apraz essa ilusão à toa

NOTA (RMACHADO): O compositor idealiza um amor e sente saudade da mulher idealizada. Depois, sente sua presença. O amor é discreto (platônico), porque não tem correspondência (“pois nem de leve sabes que te quero”). Dá-lhe prazer “essa ilusão à-toa”.

O QUE É AMAR
(Johnny Alf)

É só olhar
Depois sorrir
Depois gostar
Você me olhou
Depois sorriu
Me fez gostar
Quis controlar meu coração
Mas foi tão grande a emoção
De tua boca ouvi dizer
- Quero você!
Quis responder
Quis lhe abraçar
Tudo falhou
Porém você me segurou e me beijou
Agora eu posso argumentar
Se perguntarem o que amar
- É só olhar, depois sorrir, depois gostar!

NOTA (RMACHADO): O compositor descobre o amor. Invadido pela emoção do amor nascendo e crescendo dentro do coração, tudo que tentou, falhou. Atônito, depois de abraçado e beijado pela mulher amada, agora ele sabe responder o que é amar: - É só olhar, depois sorrir, depois gostar. Nada mais verdadeiro!

AH! SE EU PUDESSE
(Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)

AH! se eu pudesse te buscar sorrindo
E lindo fosse o dia como um dia foi
E indo nesse lindo feito pra nós dois
Pisando nisso tudo que se fez canção
AH! se eu pudesse te mostrar as flores
Que cantam suas cores pra manhã que nasce
Que cheiram no caminho como quem falasse
As coisas mais bonitas pra manhã de sol
Ah! se eu pudesse no fim do caminho
Achar nosso barquinho e leva-lo ao mar
Ah! se eu pudesse toda a poesia
Ah! se eu pudesse sempre aquele dia
Ah! se eu pudesse te buscar serena
Eu juro, eu pegaria a sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo
Quase sem falar

NOTA (RMACHADO): Ronaldo Boscoli está falando para Nara Leão, mas valeria para outras mulheres que ele, depois, foi deixando pelo caminho. Há referências também à própria Bossa Nova (“pisando nisso tudo que se fez canção” e “nosso barquinho”). Ele e Nara começaram juntos na Bossa Nova. Aqui, o poeta idealiza um retorno ao passado com Nara (“e lindo fosse o dia como um dia foi”). Tudo acabado entre os dois, depois da traição de Boscoli/Maysa, Nara seguiu em frente e fugiu do “lobo”, que nada tinha do bobo. Pena que ela tenha partido tão cedo para cantar além das estrelas, a exemplo de santa Clara, nossa eterna sabiá.

O BARQUINHO
(Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)

Dia de luz
Festa de sol
E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar
Tudo é verão
O amor se faz
Num barquinho pelo mar
Que desliza sem parar
Sem intenção nossa canção
Vai saindo desse mar
E o sol beija o barco e... luz
Dias tão azuis

Volta do mar
Desmaia o sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade de cantar
Céu tão azul
Ilhas do sul
E o barquinho é um coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão
E então...
O barquinho vai
A tardinha cai
O barquinho vai...

NOTA (RMACHADO): Boscoli e Menescal num barquinho à deriva. Depois do susto, só podia dar samba, no melhor estilo Bossa Nova, idealizado a partir do barulho do motor, sem partida.

VOCÊ
(Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)

Você, manhã de tudo meu
Você, que cedo entardeceu
Você, de quem a vida eu sou
Eu seu, mas eu serei
Você, um beijo bom de sol
Você, que em cada tarde vã, virá
Sorrindo de manhã
Você, um riso lindo à luz
Você, a paz de céus azuis
Você, sereno, bem de amor em mim
Você, tristeza que eu criei
Sonhei você pra mim
Vem mais pra mim

NOTA (RMACHADO): Parceria impressionante a de Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli. Compuseram pérolas da Bossa Nova. As letras muito bem cuidadas. As melodias maravilhosas. Esta letra é belíssima. “Você” seria Nara Leão? Certamente, a exemplo de “Ah! se eu pudesse”. Maysa, não. Abstraindo-se, fica a poesia, uma ode à mulher amada.



NÓS E O MAR
(Roberto Menescal/Ronaldo Boscoli)

Lá se vai mais um dia assim
E a vontade que não tenha fim, este sol
É viver, ver chegar ao fim
Essa onde que cresceu, morreu aos meus pés
E olhar pro céu que é tão bonito
E olhar pra esse olhar perdido
Nesse mar azul
Uma onde nasceu, calma, desceu, sorrindo
Lá vem vindo
Lá se vai mais um dia assim
Nossa praia que não tem mais fim, acabou
Vai subindo uma lua assim
E a camélia que flutua nua no céu

NOTA (RMACHADO): Uma prova de que a Bossa Nova nasceu à beira-mar. A Bossa Nova, como diz a letra de Wave (Tom/Vinicius) e reconhecem os críticos, foi uma “onda que se ergueu no mar”. Aqui, talvez o poeta esteja falando apenas só mesmo da relação do casal com o mar. Não se sabe se está falando do presente ou já do passado. O verso “nossa praia que não tem mais fim, acabou” tanto pode estar falando apenas de um fim de tarde na praia, como pode referir-se ao relacionamento acabado entre Ronaldo Boscoli e Nara, ou até mesmo sobre o fim do movimento “bossa-nova”. Hoje se sabe que a Bossa Nova arrefeceu por volta de 1962/4. Depois, ganhou o mundo, consolidou-se internacionalmente, retomando seu devido lugar em sua terra natal.

MENTIRAS
(João Donato/Lysias Ênio)

Diga essas coisas todas
Essas coisas tolas
Que eu gosto de ouvir
Eu sei
Que essas coisas tantas
Que essas coisas tontas
São só mentiras de você
Diga que o amor foi tudo
Mesmo assim, contudo,
Foi bem melhor partir
Eu sei
Por isso diga (por favor)
Diga que sem o meu amor
Você não pode mais viver!

NOTA (RMACHADO): O poeta não mente. Quando apaixonado, cria hipérboles ou imagens surrealistas. É um fingidor. E às vezes finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente (Fernando Pessoa). Mas, de repente, nunca mente, conquanto seja complacente com as mentiras da mulher amada. Afinal, como diria Noel Rosa: são mentiras de mulher/pode crer quem quiser. Aqui, o poeta pede (por favor): - Diga que o amor foi tudo. Diga que sem o meu amor você não pode mais viver! Como a dizer: - minta pra mim!

ATÉ QUEM SABE
(João Donato/Lysias Ênio)

Até um dia
Até talvez
Até quem sabe
Até você sem fantasia
Sem mais saudade
Agora a gente
Tão de repente
Nem mais se entende
Nem mais pretende
Seguir fingindo
Seguir seguindo
Agora vou
Pra onde for
Sem mais você
Sem me querer
Sem mesmo ser
Sem me entender
Vou me beber
Vou me perder
Pela cidade
Até um dia
Até talvez
Até quem sabe

NOTA (RMACHADO): - Agora a gente/ tão de repente/ nem mais de entende. Aqui, o compositor despede-se do seu amor: - até um dia... O amor foi-lhe eterno somente enquanto durou a chama da paixão, como vaticinava o poetinha (Vinícius). Aqui, parece que o compositor não sabia que, para durar, o amor exige esforço.  

PRA QUE CHORAR
(Baden Powell/Vinícius de Moraes)

Pra que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a luz vai nasceu
É só o sol se por
Pra que chorar se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor
Quem não chorou
Quem não se lastimou
Não pode nunca mais dizer
Pra que chorar
Pra que sofrer
Se é sempre um novo amor
Cada novo amanhecer

NOTA (RMACHADO): O poetinha e seu eterno renovar de paixões: pra que chorar/pra que sofrer/se é sempre um novo amor/cada novo amanhecer.

TEM DÓ
(Baden Powell/Vinícius de Moraes)

Ai, tem dó
Quem viveu junto
Não pode nunca viver só
Ai, tem dó
Mesmo porque
Você não vai ter
Coisa melhor
Não me venha achar ruim
Porque você me conheceu assim
Me diga agora, e agora
Não foi assim que você gamou?
Você sabe muito bem
Que mesmo louco assim
Gamei também
Me diga agora, ora, ora
Será que alguém
Não foi que mudou?

NOTA (RMACHADO): Dizem que a mulher sempre quer mudar seu homem. Mas Vinícius afirma: “Não me venha achar ruim, porque você me conheceu assim”. E depois indaga: “Me diga agora, e agora, não foi assim que você gamou?”.

SAMBA DA BENÇÃO
(Baden Powell/Vinícius de Moraes)

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Precisa um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
Tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste, não

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

NOTA (RMACHADO): Vinicius declarou-se “o branco mais preto do Brasil”, depois de dizer que o samba é branco na poesia, mas é negro demais no coração. E aqui ele diz: É melhor ser alegre que ser triste. Mas pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, porque o samba é a tristeza que balança.





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