A Tonga da Mironga do
Kabuletê
Composição:
Toquinho/Vinícius de Moraes
Eu
caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê (5x)
Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê (5x)
Lá, lá, lá, iá...
Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê...
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê (5x)
Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê (5x)
Lá, lá, lá, iá...
Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê...
NOTA (RMACHADO): Nesse tempo, Vinícius de Moraes (1913-1980) está na sua fase bahiana, casado com a exuberante e poderosa Gesse Gessy. Ela o apresenta e o integra à comunidade negra da Bahia. Ensina-o bossas relacionadas com o dialeto africano nagô, especialmente a expressão “tonga da mironga do kabuletê” (em bom português: “cabelo do cú da mãe”). Estamos no início da década de 1970, no auge da ditadura, e Vinícius aproveita a nova expressão para zoar com os militares no poder, confiando que na Academia Militar ninguém saberia traduzir o dialeto nagô. Diz a história que a ditadura começa tímida (“envergonhada”, como definiu Elio Gaspari). Os militares, com o Golpe de março de 1964, até prometem devolver o poder ao civís em poucos meses. Mas logo tomam gosto e a ditadura se escancara, a partir de dezembro de 1968, com a edição do AI-5. Aqui, Vinícius, no início de sua parceria com o jovem Toquinho, cututa a ditadura, rogando-lhe uma praga: “eu vou é mandar você/pra tonga da mironga do kabuletê”. É em “você que entra e não cabe” a melhor referência aos militares. Toquinho, esquivo até hoje, sempre diz que estavam se referindo a um certo chato, aquele cara que, chegando de paraquedas numa roda de amigos, faz o diabo para virar o centro das atenções, ocupando todo o ambiente, não dando espaço para ninguém. Não há como evitar esse tipo de figura. Mas é bom que estejamos vacinados contra ditaduras, seja de direita ou de esquerda, porque já não temos Vinícius para mandar-lhes pra tonga da miranga do kabuletê!