domingo, 28 de julho de 2013

CONTEXTUALIZAÇÃO DA MPB



A Tonga da Mironga do Kabuletê
Composição: Toquinho/Vinícius de Moraes
Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender

A tonga da mironga do kabuletê (5x)

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver

Na tonga da mironga do kabuletê (5x)

Lá, lá, lá, iá...

Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você

Pra tonga da mironga do kabuletê...

letras acima



NOTA (RMACHADO): Nesse tempo, Vinícius de Moraes (1913-1980) está na sua fase bahiana, casado com a exuberante e poderosa Gesse Gessy. Ela o apresenta e o integra à comunidade negra da Bahia. Ensina-o bossas relacionadas com o dialeto africano nagô, especialmente a expressão “tonga da mironga do kabuletê” (em bom português: “cabelo do cú da mãe”). Estamos no início da década de 1970, no auge da ditadura, e Vinícius aproveita a nova expressão para zoar com os militares no poder, confiando que na Academia Militar ninguém saberia traduzir o dialeto nagô. Diz a história que a ditadura começa tímida (“envergonhada”, como definiu Elio Gaspari). Os militares, com o Golpe de março de 1964, até prometem devolver o poder ao civís em poucos meses. Mas logo tomam gosto e a ditadura se escancara, a partir de dezembro de 1968, com a edição do AI-5. Aqui, Vinícius, no início de sua parceria com o jovem Toquinho, cututa a ditadura, rogando-lhe uma praga: “eu vou é mandar você/pra tonga da mironga do kabuletê”. É em “você que entra e não cabe” a melhor referência aos militares. Toquinho, esquivo até hoje, sempre diz que estavam se referindo a um certo chato, aquele cara que, chegando de paraquedas numa roda de amigos, faz o diabo para virar o centro das atenções, ocupando todo o ambiente, não dando espaço para ninguém. Não há como evitar esse tipo de figura. Mas é bom que estejamos vacinados contra ditaduras, seja de direita ou de esquerda, porque já não temos Vinícius para mandar-lhes pra tonga da miranga do kabuletê!


sexta-feira, 26 de julho de 2013

CONTEXTUALIZAÇÃO DA MPB




O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco /Aldir Blanc)

(LETRA ORIGINAL ANTES DA CENSURA)

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo...

O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco /Aldir Blanc)

(LETRA CENSURADA E GRAVADA)

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
Dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então:
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas a lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo...


NOTA (RMACHADO): Mestre Sala dos Mares é composição de 1974, gravada em fevereiro de 1975, do feliz encontro entre um músico mineiro (o engenheiro João Bosco) e um letrista carioca (o psiquiatra Aldir Blanc), ambos da tribo de Elis Regina e por ela alçados ao sucesso. Em meados de 1970, ainda se vivia sob o domínio da ditadura militar, iniciada com o Golpe de março de 1964, deflagrado sob a bandeira de combater a corrupção e o comunismo. Segundo os historiadores, nem “revolução” nem “contragolpe”. Instalada, a ditadura começa “envergonhada” (Elio Gaspari), com o primeiro presidente militar, o marechal cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, prometendo uma rápida devolução do poder aos civis. Mas, a partir de dezembro de 1968, com a edição do AI-5, a ditadura assume-se “escancarada” (Elio Gaspari). A partir de 1974, com a promessa do então presidente, o General Ernesto Geisel, de uma “distensão lenta e gradual” (abertura), os movimentos civis pela anistia política ganham força, até que o Congresso Nacional decide pela edição de uma Lei de Anistia, em 1979. A letra original de Mestre Sala dos Mares foi alvo de censura (parada federal: verdadeiros barnabés do funcionalismo público alçados a tais cargos por subserviência ou alienação, nas palavras do compositor Paulo César Pinheiro). Censurada, seu letrista, Aldir Blanc, é obrigado a modificá-la, única maneira capaz de objetivar sua gravação e divulgação. Comparando-se as duas versões, é visível a mutilação da obra. A letra gravada parece incompreensível, tanto que pouca gente soube contextualizá-la naquela década, a exceção de poucos intelectuais. A grande maioria do povo brasileiro ficou em palpos de aranha. A letra soava exótica, como exótica era a obra da dupla: um “furdunço”, uma variedade de ritmos, desligada de qualquer gênero musical específico. Quem seria aquele bravo feiticeiro, o navegante negro, o dragão do mar redivivo, a quem a história não esqueceu? Na verdade, a versão original não deixa de cutucar a ditadura, porque homenageia, sob o título de “Almirante Negro”, o líder da revolta da chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910. Conta-nos a história que, naquela época, os marinheiros se revoltaram pelos castigos físicos que lhes eram infligidos pela Marinha do Brasil. O motim fez tremer o poder central, com os marinheiros apontando os canhões das fragatas fundeadas para a sede do governo, na baia da Guanabara. O governo central negociou, abolindo os castigos físicos e concedendo anistia aos revoltosos. Logo depois, pressionado pela Marinha, o governo retrocedeu, traiu o acordo e prendeu os insurretos na Ilha das Cobras (RJ). Praticamente todos morreram asfixiados na prisão, escapando apenas dois marinheiros, um dos quais exatamente o líder da revolta, o Almirante Negro, o Dragão do Mar, o cearense João Cândido, depois desterrado para o ACRE, ali tido como louco, morrendo quase nonagenário em 1969, tratando-se de personagem, post mortem, cultuado no seu Estado natal. O pomo da discórdia da censura oficial, ao tempo da edição da composição Mestre Salas dos Mares, era o epíteto “almirante negro”. A Marinha do Brasil era elitista. Jamais um negro, naqueles tempos, chegaria a Almirante. Logo, atribuir-se tamanho galardão ao subalterno marinheiro, negro, líder dos insurretos de 1910, soava como um insulto à Marinha do Brasil. Daí a navalhada da censura oficial.



terça-feira, 23 de julho de 2013

CRÔNICA MUSICAL



JOSÉ, de DRUMMOND

Roberto Machado


E agora José ?        (Expressão de domínio público: beco sem saída ou busca de solução)
A festa acabou,      (está sem saída, no fim da linha)
A luz apagou,        (está numa situação sem saída)
O povo sumiu,       (ficou só no mundo)
A noite esfriou,      (está desamparado, sem agasalho)
E agora, José ?       (você está num beco sem saída, qual é a solução?)

E agora, você ?          
Você que é sem nome,    (Ele ou uma pessoa qualquer)
Qu                                          Que zomba dos outros
Voc                                         Você que faz versos  
Que ama, protesta,           (brincalhão, poeta, cheio de vida, ativista)
E agora, José ?                  (passa a questionar sua relação “eu-vida-mundo”,
                                          cai em depressão e passa a ver o lado negativo
                                          da vida)

Está sem mulher,                   
Está sem discurso,
Está sem carinho,
Já não pode beber,                
Já não pode fumar,                
Cuspir já não pode,            (relação conflitiva e negativa - nada tem e nada pode fazer)
A noite esfriou,                  (não há calor, está ao desamparo)
O dia não veio,                   (não há luz, não veio a solução)
O bonde não veio,              (está sem caminho, sem rumo)
O riso não veio,                  (está infeliz, sem alegria)
Não veio a utopia               (Utopia: sonho-ilusão do futuro inatingível - está sem futuro)
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou,
E agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,                   (meiguice, educação)
Seu instante de febre,            (alucinações febris)
Sua gula e jejum,                   (bonança)
Sua biblioteca,                       (prova de sua cultura)
Sua lavra de ouro,                  (boa redação, bom texto)
Seu terno de vidro                  (roupa fina e bem cuidada)
Sua incoerência                      (diz uma coisa e faz outra - se contradiz)
Seu ódio, e agora ?                 (não adianta seu ódio)
Com a chave na mão
Quer abrir a porta,                  (ele até tenta sair daquela situação)
Não existe porta;                    (não está encontrando saída)
Quer morrer no mar   
Mas o mar secou;                   (não tem água para se afogar)
Quer ir para Minas                 (autobiográfico – voltar para terra natal)
Minas não há mais.                 (perdeu a referência da própria terra natal)
José, e agora ?

Se você gritasse,                     (será que resolveria gritar, dormir, morrer ?)
Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa vienense,                   (valsa mais linda do mundo)
Se você dormisse,                  (dormir para acordar noutra realidade)
Se você cansasse
Se você morresse...                 (ir à exaustão ou até morte, resolve ?)
Mas você não morre,
Você é duro, José ?                (até a morte libertadora não vem, não chegou a hora!)

Sozinho no escuro                  (continua vivo e sem saída)
Qual bicho-do-mato,              (os bichos vivem escondidos no mato)
Sem teogonia,                        (sem crença, sem Deus, sem religião)
Sem parede nua
Para se encostar,                     (sem a mínima base de apoio)
Sem cavalo preto
Que fuja a galope,                  (sem poder escapar com rapidez)
Você marcha, José !  
José, para onde ?                    (ele segue à busca de um rumo, de uma solução)


RESUMO: Drummond nasceu em Minas Gerais, na cidade interiorana de Itabira. Teve problemas de relacionamento com um professor. Foi expulso do Colégio. Fixou-se no Rio de Janeiro e ali morreu. Nunca voltou para Minas. Teve sérios e eternos problemas com a mulher. Perdeu a única filha, o grande amor de sua vida. Morreu logo depois. O poema José é autobiográfico. Parece falar de si e consigo mesmo. Questiona sobre sua própria existência humana, seus conflitos existenciais, valorizando a autonegação. O nome José designa que é uma pessoa comum. Todos temos tais conflitos existenciais. Note-se que o poema já começa com o personagem num beco sem saída. Antes um homem brincalhão (zomba dos outros), cheio de vida e ativo (ama, protesta), passou a questionar seu ser-no-mundo (sua relação com o mundo, com a vida, com as pessoas), ou seja, seus conflitos existenciais. Mas pelo lado negativo, fruto de sua autonegação. Tudo lhe era negado (beber, fumar, cuspir). Um ser em pleno estado depressivo. Não lhe veio nem a utopia (um sonho de futuro inatingível). Tudo que tinha de bom (sua biblioteca, terno bom, lavra de ouro) ou de ruim (incoerência, ódio) já nada lhe valia. Tentou encontrar uma saída (porta). Não encontrou. Não encontrou nem o caminho de casa (Minas, terra natal, de quem perdera a própria referência). Será que a saída era gritar, gemer, dormir (para acordar com a solução) ou mesmo morrer (solução definitiva)? Mas ele não morria. Continuava naquele estado depressivo (sozinho, no escuro, como um bicho-do-mato), sem apoio (parede), sem Deus (teogonia), sem poder escapar com rapidez (sem cavalo preto). Mas ele devia seguir (marchar) à busca de uma solução (para onde ?).