domingo, 14 de julho de 2013

CRÔNICA




O HOMEM NA SUA FRAGILIDADE
Roberto Machado
Dormiu tarde, entediado.

Passava pouco das 8:00 horas da manhã quando o clarão que entrava pela janela descortinada do seu quarto jogou-o cama afora. O raciocínio turno, o gosto acre na boca, o sono lhe fora nada libertador.

Não se considera narcisista, ma se pegou contemplativo no espelho molhado do banheiro escuro, procurando perscrutar os recônditos de sua alma. Ali estava apenas um espectro de homem. Seu estado era de pura alienação, recurso de que lança mão quando assediado pela depressão.

As lembranças do dia anterior ainda lhe ardiam o cérebro. Não queria admitir que ficara desapontado com a atitude dela. A propósito, sequer se permitia tamanho direito. Mas certo é que lhe bastou uma só desatenção, para que se pusesse diante de uma verdade contra a qual lutava inconscientemente: ela crescera demasiadamente nas suas entranhas. Parece que seu erro foi amar o que amar se pôde, sem ter amado o que amar devia, como advertira o poeta Otaviano.

O domingo foi o que caberia chamar “um dia de cão”. Ensimesmado qual um autista nos seus dias mais lancinantes, travou luta interior de vida-ou-morte contra aquele estado de insanidade. Mas não fez daquele momento imóvel um drama, como Vinícius.

Usou de um artifício e foi ter com ela à tardinha. Mas soçobrou diante de sua conveniente indiferença. E lhe valeu a lição.

Convencido de que a vida infelizmente lhe reservara novo desencontro e mais uma separação, põe-se na vã tentativa de dominar aquela vontade incessante e quase obsessiva de revê-la, buscando o necessário equilíbrio para seguir levando a vida. Mas não lhe abandonava a idéia fixa de que ela certamente nem se apercebeu que ele odiará para sempre os embalos daquele sábado à noite.

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