sábado, 13 de julho de 2013

CRÔNICA MUSICAL



NÃO DEIXE O SAMBA MORRER

Roberto Machado
- Este país não tem memória!
Faz anos escuto essa mesma cantilena. Não sei exatamente como se comportam os povos de outras nações.  Mas os exemplos conhecidos dão-nos conta de que há neles um forte sentimento de preservação de sua cultura. As Pirâmides, o Coliseu, as obras de arte e clássicos da música erudita ultrapassam os séculos. Até a célebre Torre de Pisa continua lá: balança, balança..., mas não cai!
O Brasil é o paraíso dos modismos. E, dizem, até de coisas piores. A idéia do consumismo americano encontrou seu hábitat natural neste país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas a beleza pára por aí!
Fatores os mais diversos contribuem para isso. Desde recuados tempos, o governo (não foi o desgoverno?) sepultou várias tentativas que visavam preservar, na memória do povo, grandes nomes de nossa cultura estampados em nosso dinheirinho. Lembram no que deu?
Recordo que o Chico (o Buarque de Holanda) já lamentava a má  sorte do Almirante Tamandaré, ali parado no meio de uma nota de um cruzeiro rasgado, porque o tempo inconstante roubou o seu valor. Melhor destino também não foi reservado ao nosso poeta maior. (Como diria o compositor popular, aqui não deu ninguém maior do que Drummond!). E deu que, em pouco tempo, aquela notinha de cinqüenta cruzeiros (quem lembra?) passou a não ser aceita nem como esmola:
 - Ah, toma um Drummond!  
- Não, tua amizade basta!
Quanto ao “pobre Almirante”, sua má sorte não foi tanta. Pelo menos ganhou um samba. E logo do Chico, nossa unanimidade nacional.
E já que falei de samba, quero pegar a deixa exatamente para falar sobre... S-A-M-B-A. Não sobre onde ele nasceu: se na África, na Bahia ou no Rio; se no morro ou lá na cidade. Nem se ele é fruto dessa milagrosa miscigenação à brasileira, da “arte do encontro” entre negros, embuçados nos morros do Estácio, e brancos da elite carioca. Mas, sim, sobre o esquecimento que ele e seus grandes compositores têm experimentado. Vejam que, antes de desencarnar, Tom Jobim já reclamava disso em programa de televisão dedicado ao compositor Assis Valente, um sambista incrível que terminou cometendo suicídio, no final da década de 50, amargurado pelo esquecimento popular.
É certo que o samba e a própria música popular brasileira foram alvos de um renascimento a partir de 1974, depois do período mais negro da ditadura implantada com o Golpe Militar de 1964/1985 (nem contragolpe, nem revolução!). Mas, especialmente a partir do final dos anos 70, voltou a sofrer injunções de modismos que se sucederam, a exemplo da discoteca, da febre da lambada e, por último, do axé, que terminou sepultando as músicas de nossos velhos carnavais, canções que sempre pensei eternas. Até gostei da lambada. Foi bonito ver a juventude lambadeando. Nada contra o axé (opa!). Mas tudo a favor dos sambas e das velhas marchinhas, porque não é certo, não é justo, e depõe contra nossa cultura, constatarmos que os homens responsáveis pelos meios de divulgação musical deixam relegados a um plano secundário grandes compositores, inclusive nomes consagrados do passado, contribuindo para que caiam no esquecimento popular. O próprio Noel Rosa, apesar dos livros editados a seu respeito, não tem sido regravado, salvo raríssimas exceções, a exemplo do “Songbook Noel”, de 1991, idealizado e produzido por Almir Chediak, e os CD’s “sem tostão... a crise não é boato...”, de 1995, e “sem tostão 2... a crise continua”, de 2001, ambos de Cristina Buarque de Holanda e Henrique Cazes.
A Bossa Nova, respeitadíssima além mar, aqui não passou ao largo do esquecimento, apesar de edições bem sucedidas, a exemplo dessa maravilha que se chama Leila Pinheiro, uma espécie de Elis rediviva. O Tom foi se refugiar nos States. Brincou de ficar uns tempos por lá, deixando a gente aqui sem ter o que cantar, como diria o compositor popular. Depois, resolveu refazer sua parceria com Vinicius em outra dimensão. Vejam que o Chico já é o “velho Chico”, e o público jovem não conhece a fase dos seus vinte e poucos anos. Já  não consigo escutar nem mesmo João Nogueira, depois que ele, além do espelho, também resolveu se tornar saudade, como Nelson Cavaquinho, que sempre viveu nas estrelas, bem pertinho do céu, lá... lá no morro na Mangueira, bem defronte a ribanceira, onde hoje não apenas uma, mas várias cruzes a gente vê!
O certo é que todos falam, mas pouca coisa tem sido feita para despertar no jovem o gosto pela boa música popular brasileira. A juventude é o elo que interliga o passado à posteridade. É preciso estimulá-la. A pergunta então é: como fazer isto?
A minha opinião sempre costumo externá-la em rodinhas informais: de nada adianta programas televisivos com tom nostálgico; é gostoso, informativo, mas não tem aquela pimenta exigida pela inquietação própria da juventude. Pessoalmente, só conheço um meio eficaz: a reedição dos compositores por intérpretes novos, mais ao gosto popular. Os exemplos são notáveis. O que me dizem de MARIA BETHÂNIA em "Se Todos Fossem Iguais a Você", de Tom e Vinícius, "Camisa Listada", de Assis Valente, e "Último Desejo", de Noel Rosa, em disco de 1968; de SIMONE em "Para Não Dizer Que Não Falei Das Flores", de Geraldo Vandré, em disco de 1980; de GAL COSTA em "É Luxo Só", de Ary Barroso e Luiz Peixoto, em disco de 1980; de EMÍLIO SANTIAGO em "Isto Aqui o Que é", de Ary Barroso, em disco de 1989, mais recentemente gravada pelo próprio Caetano Veloso; e, finalmente, dos maravilhosos CD’s e um DVD da “Casa de Samba”, reunindo sambistas do presente e do passando interpretando sambas de ontem e de hoje ?
O retorno, em todos os sentidos, é garantido.
- Não deixe o samba morrer ... não deixe o samba acabar!




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