O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco /Aldir Blanc)
(LETRA ORIGINAL ANTES DA CENSURA)
Há muito tempo nas águas da
Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante
negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com
seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas
francesas
Jovens polacas e por batalhões de
mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das
chibatas
Inundando o coração de toda
tripulação
Que a exemplo do marinheiro
gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às
sereias
Glória à farofa, à cachaça, às
baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo...
O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco /Aldir Blanc)
(LETRA CENSURADA E GRAVADA)
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
Dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então:
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas a lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo...
NOTA (RMACHADO): Mestre Sala dos Mares é composição de 1974, gravada em
fevereiro de 1975, do feliz encontro entre um músico mineiro (o engenheiro João
Bosco) e um letrista carioca (o psiquiatra Aldir Blanc), ambos da tribo de Elis
Regina e por ela alçados ao sucesso. Em meados de 1970, ainda se vivia sob o
domínio da ditadura militar, iniciada com o Golpe de março de 1964, deflagrado
sob a bandeira de combater a corrupção e o comunismo. Segundo os historiadores,
nem “revolução” nem “contragolpe”. Instalada, a ditadura começa “envergonhada”
(Elio Gaspari), com o primeiro presidente militar, o marechal cearense Humberto
de Alencar Castelo Branco, prometendo uma rápida devolução do poder aos civis. Mas,
a partir de dezembro de 1968, com a edição do AI-5, a ditadura assume-se “escancarada”
(Elio Gaspari). A partir de 1974, com a promessa do então presidente, o General
Ernesto Geisel, de uma “distensão lenta e gradual” (abertura), os movimentos
civis pela anistia política ganham força, até que o Congresso Nacional decide
pela edição de uma Lei de Anistia, em 1979. A letra original de Mestre Sala dos
Mares foi alvo de censura (parada
federal: verdadeiros barnabés do funcionalismo público alçados a tais cargos por
subserviência ou alienação, nas palavras do compositor Paulo César Pinheiro).
Censurada, seu letrista, Aldir Blanc, é obrigado a modificá-la, única maneira capaz
de objetivar sua gravação e divulgação. Comparando-se as duas versões, é visível
a mutilação da obra. A letra gravada parece incompreensível, tanto que pouca
gente soube contextualizá-la naquela década, a exceção de poucos intelectuais. A
grande maioria do povo brasileiro ficou em palpos de aranha. A letra soava
exótica, como exótica era a obra da dupla: um “furdunço”, uma variedade de
ritmos, desligada de qualquer gênero musical específico. Quem seria aquele
bravo feiticeiro, o navegante negro, o dragão do mar redivivo, a quem a
história não esqueceu? Na verdade, a versão original não deixa de cutucar a
ditadura, porque homenageia, sob o título de “Almirante Negro”, o líder da
revolta da chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910. Conta-nos a história
que, naquela época, os marinheiros se revoltaram pelos castigos físicos que lhes
eram infligidos pela Marinha do Brasil. O motim fez tremer o poder central, com
os marinheiros apontando os canhões das fragatas fundeadas para a sede do governo,
na baia da Guanabara. O governo central negociou, abolindo os castigos físicos
e concedendo anistia aos revoltosos. Logo depois, pressionado pela Marinha, o
governo retrocedeu, traiu o acordo e prendeu os insurretos na Ilha das Cobras
(RJ). Praticamente todos morreram asfixiados na prisão, escapando apenas dois
marinheiros, um dos quais exatamente o líder da revolta, o Almirante Negro, o
Dragão do Mar, o cearense João Cândido, depois desterrado para o ACRE, ali tido
como louco, morrendo quase nonagenário em 1969, tratando-se de personagem, post mortem, cultuado no seu Estado
natal. O pomo da discórdia da censura oficial, ao tempo da edição da composição
Mestre Salas dos Mares, era o epíteto “almirante negro”. A Marinha do Brasil
era elitista. Jamais um negro, naqueles tempos, chegaria a Almirante. Logo, atribuir-se
tamanho galardão ao subalterno marinheiro, negro, líder dos insurretos de 1910,
soava como um insulto à Marinha do Brasil. Daí a navalhada da censura oficial.
Não tinha conhecimento da censura a essa letra e muito menis conhecia o original.
ResponderExcluirGrata pela informação e parabens pela bela aula de História do Brasil.